Fim de tarde.

Ergo-me da terra
O navio surge
no martírio das águas
O homem acena
sem razão
O areal induz
a melancolia da tarde.
Olho para o lugar
onde tudo aconteceu.
É indiferente.
Já não o reconheço
como outrora.
O céu mudou
Já não é a mesma luz.
Do espanto nada restou.
Percorro o sombrio caminho
de nenhum-lugar.
Perco-me
na tarde dos pássaros à beira-mar.

Foto de Miguel Marecos.

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e tu e eu.

no regresso a casa
vinhas perdido
e o teu canto
tornou-se silêncio.

se a saudade morresse
em cada entardecer
o teu coração azul
ecoaria nas planicies.

desconhecia onde
a tortura delirava
o teu pranto.
desaparecias
segundo a segundo.

entre o aqui e o longínquo
a infinitude
percorria as azafamas
da vida diurna

ao alcance dos olhos
as turbulências dos passos
e das conversas frágeis
sem nada revelarem

e tu,
astro inquieto
de um corpo desconhecido.
um amor que já não busco
no espelho do quarto.

quando agora imagino
conversas longas
distantes de ti
outros lugares
surgem no firmamento.

raízes fincadas na terra
queda abrupta
palavras soltas
círculos desunidos
e tu e eu
eternamente enclausurados
pelo esquecimento.

Fotografia de João Pádua.

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viagem.

um pensamento veloz soltou-se descuidado.
viaja pensamento…vê o mundo sem fim.
um dia volta a esta casa…de onde partem todas as viagens.

imagem de John Stezaker.

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morte.

um manto negro vai cobrir-te de desesperos um manto
negro vai cobrir-te de desesperos um manto negro
vai cobrir-te de desesperos um manto negro vai
cobrir-te de desesperos um manto negro vai cobrir-te
de desesperos um manto negro vai cobrir-te de desesperos
um manto negro vai cobrir-te de desesperos um manto negro
vai cobrir-te de desesperos um manto negro vai
cobrir-te de desesperos um manto negro vai cobrir-te
de desesperos um manto negro vai cobrir-te de
desesperos um manto negro vai cobrir-te de desesperos
um manto negro vai cobrir-te de desesperos um manto
negro vai cobrir-te de desesperos um manto negro

[morte]

Albinoni’s Adagio in G minor

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há no embalo tanto de sonho…

há no embalo tanto de sonho…

uma porta que se entreabre
uma voz que se adivinha
uma brisa que te leva
um olhar que se espanta

e tu vais…

embalado
pelo sonho.

Fotografia de Miguel Marecos.

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Eu sou um anjo que não pode voar.

eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não  pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um anjo que não pode voar eu sou um

dei-te as minhas asas.

Pintura de Miguel Marecos.

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Partir.

Com o lápis de carvão escrevi a palavra Partir num pedaço de papel.
Rasguei-o em mil momentos e espalhei-os no vento da noite escura.
De manhã quando acordei, não sabia onde estava.

Imagem de Gilbert Garcin

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Brindemos, então.

Tenho medo dos
lugares do meu corpo
Um lento dilúvio
percorre as veias
e desagua na solidão

Tenho medo dos
lugares do teu corpo
um amor ausente
gasto pelas palavras
do tempo

É um voo arriscado partir
Necessário, enfim

No lugar instável
onde me deito
deambulam os sonhos
e a vida tece uma
corrente infinita
de esquecimentos

No outono é pior -
ao cair da cinza do amanhecer
o ser procura uma companhia
de devaneios
e nada é importante

O vazio da horas instala-se
e entre nós a floresta despida
sussurra palavras surdas.

Fútil, és

Acalenta-nos ainda
esta forma perene de esquecimento

Brindemos, então

Brindemos à solidão
que nos corrói os dias e o corpo
até ficarmos cadáveres de luz impenetrável

Brindemos à terra infértil
com que alguém cobriu as flores, os canteiros
e os beirais das casas

Brindemos às luas vagas
no monocórdico correr da fragilidade

Às vezes tenho medo
dos lugares do teu corpo
do que és em mim
em gestos longínquos
da brisa que suspende
os meus braços
e desaparece.

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Antemanhã.

Amanhã o lugar do desalento
correrá veloz
por entre as cortinas do ar

Na solidão
alguém tentará o fim
e em résteas de esperança
crispará as mãos em busca
de terra firme

Outros olharão no firmamento
as constelações da noite
e em círculos recônditos
vociferarão palavras doces
como doce é o encanto do teu colo

Eis as pessoas – entram
através de portas antigas
que o Inverno enregelou na espera

Na visibilidade da pele
procuram uma mesa, um recanto ou um lugar
onde a solidão não habite
Espreitam a medo enfiando as mãos nos bolsos
- é preciso cuidado, muito cuidado
com os anjos negros da aurora
O inferno – dizem – anseia pelo abandono
e uma alma perdida é um alvo fácil

Por isso é que as antemanhãs
precedem o sol
e o ocaso a morte.

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O principio e o fim.

O Sr. Absurdo caminhava diariamente dez quilómetros de marcha atrás
Um dia hei de chegar ao principio de todas as coisas – justificava ele.
Infelizmente concluiu que o principio e o fim habitam a mesma casa

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